O sorriso de Bia A Bia é uma pessoa que, quando sorri não o faz apenas com lábios e dentes O sorriso começa ali na boca Mas logo faz seus olhos brilharem e toda a sua aura se alumiar Mesmo se ela sorri pra não chorar, falando de temas difíceis E se o sorriso não é só e vira riso A sua sonora melodia encanta qual canto de sereia Nos fazendo a querer sempre por perto. Tamanho é o poder desse sorriso Que um breve contato com ele Traz cor à chuva Inspira versos E acaricia o coração da gente. (Felipe Rocha, 11 de janeiro de 2018)
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Um copo, um cigarro e um beijo I Algumas paisagens nunca cansam o olhar, por mais que os olhos envelheçam. O pôr do Sol visto do alto de um prédio na beira da praia de Copacabana era uma dessas. “ Cidade maravilhosa és minha... o poente na esquina de tuas montanhas... quase arromba a retina de quem vê ”, cantava o Chico, em uns dos versos mais bonitos sobre o Rio de Janeiro que já foram feitos. Por mais que o Beco das Garrafas carregasse toda uma história, sobretudo para um violonista de Bossa Nova, como eu, ainda preferia aceitar os convites para tocar pros grã-finos que iam fazer um happy hour no “rooftop” daquele hotel. Das décadas de boemia que marcaram a minha juventude e minha meia-idade, pouco havia restado. Lá pelos idos dos anos 70 e 80, eu ia dormir quase todos os dias de manhã (poucas vezes ia sozinho), depois de ter secado com os amigos algumas garrafas de whisky e de ter fumado alguns maços de cigarro. Veio, então, o casamento, o filho e o emprego público q...
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A dança da sereia I Elena era uma sereia diferente. Como as outras, também era humana da cabeça à cintura e tinha cauda de peixe, era dona de uma estonteante beleza e versada em magias ignoradas ou esquecidas pelos habitantes da superfície. Em verdade, o que a tornava peculiar, era o modo como enfeitiçava os homens, o motivo e a frequência com que o fazia. Suas irmãs, por mera vaidade, enfeitiçavam qualquer rapaz ou senhor desavisado que passasse por perto das águas que elas habitavam entoando belíssimas canções. Até competiam entre si para ver quem delas conseguia atrair mais homens para o fundo do mar. Como era mais enquanto o Sol reinava que os pescadores, marinheiros e banhistas frequentavam aquela praia, durante o dia é que elas emergiam das profundezas. Já Elena, não encantava ninguém por maldade ou vaidade e nem o fazia com sua voz, que também era bela, mas que pouco era ouvida pelos seres terrestres. Ela gostava mesmo era de passar a maior parte do tempo dentro ...
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O Natal improvisado de Bartolomeu I Apesar de já curado da pneumonia, Bartolomeu ainda sentia uma princípio de tosse quando respirava fundo. Ao notar isso, percebeu que foi sábia a ordem do médico de que ele não viajasse para passar o natal com um dos filhos, como fazia todo ano. Dessa vez, eram os filhos quem iriam passar o Natal na casa pequenina em que foram criados. Isto não assustava Bartolomeu. Embora a casa fosse simples demais, se comparada às residências de seus filhos, ele sabia que os meninos não ligavam para isso, tampouco seus cônjuges. O que realmente tirava o sossego de Bartolomeu era o fato de ser a primeira vez que receberia os três filhos juntos para celebrar o Natal depois da esposa ter falecido. Nunca foi um pai ausente, mas era sempre ela quem cuidava dos detalhes práticos das celebrações, tais como os enfeites e os comes e bebes. E o pior, como a restrição médica veio com menos de uma semana de antecedência pro natal e Bartolomeu não andava com muita ...
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Olhos nus Olhei para o mundo sem óculos de uma varanda tão alta quanto esta noite Há tempos eu não o fazia Já havia esquecido como é contemplar qualquer coisa com o olhar míope, sem qualquer nitidez Vendo os borrões coloridos das luzes que ainda não apagaram me questiono se a madrugada é dos poetas ou se os poetas é que são da madrugada Não vejo a resposta Com os olhos de quem só vê bem de perto percebo que, com os olhos nus, permaneço em mim mais que quando enxergo longe Não sei se isso é bom ou ruim Com o vento me soprando o rosto sinto que é a noite que me visita, não o contrário Prefiro voltar a me concentrar nesta tela à minha frente que parece ter sido pintada por artista principiante que, por só ter pincéis grossos ou velhos ou por não ter paciência ou destreza enche o quadro de cores borradas, sem qualquer nitidez Penso, então, que assim é que vivo a vida como alguém de muito empenho e nenhuma perfeição mas que, afinal de contas, acaba por fazer com a vid...