Postagens

Momento Subi alto ao morro que dista do mundo que é meu Para desacelerar a correnteza do tempo que movimenta os ponteiros e amarela as folhas E para tirar o olhar do chão e mantê-lo atento ao arco superior da esfera que habito Quero ver apenas as luzes que mudam e inundam o céu com variadas cores quentes e frias Do vermelho róseo da infantil aurora ao pontilhado brilhante que perfura a noite Do amarelo ostensivo da maior estrela em meio dia, ao amarelado branco que azula a noite Molham os meus olhos essa dança astral Cansados que estão da brusquidão das coisas Sei que sonho acordado, enquanto me ausento do mundo que é meu Aceno àquela que vê mais longe Sorrindo por saber que não descanso só Fecho os olhos porque o vento me toca E, quando o faz, requer atenção detida Ganho o céu como um anjo que acorda Que voa só porque sabe o que é vida. (Felipe Rocha,  18 de maio de 2018)
Há vezes em que as cores vivas ardem nos olhos a chuva (mesmo coberta pelo vidro) esmorece o semblante até palavras de amor ganham força de berro Há vezes em que a vontade que dá é de suspender a existência ou, pelo menos, desacelerá-la até que o turbilhão flua com delicadeza É tempo de ser flor que, alheia a todo movimento (exceto ao fustigar do vento) revela sua beleza em – diria o Vinícius – lenta decomposição poética Às vezes, a percepção do intrínseco vazio ganha uma força quase de dor e afasta o efeito da imersão nas fantasias e ilusões e a palidez de uma manhã chuvosa faz emergir em nós a nostalgia que há no olhar e no suspiro de Ingrid enquanto Sam toca “As time goes by” Não cabem romances nem manifestos nem a definição de sentidos (descobertos ou inventados) nestes momentos em que a solidão revela sua solidez apenas humildes fragmentos que mais servem a quem escreve do que a quem lê carregados de uma beleza íntima, típica do que é efêmero como tudo aq...
A diferença entre ver e olhar A professora perguntou à turma do pequeno José a diferença entre ver e olhar. Como os seus pais estavam viajando, a única alternativa era perguntar ao avô, cujas respostas não eram confiáveis por ele padecer do vício de ser poeta. Disse-lhe o velho:  "Ver nós fazemos com os olhos. É o que nos diferencia dos cegos. Olhar é atividade que se faz com a mente e o coração, ainda que seja através dos olhos. Olhar é abraçar com a vista aquilo que se observa, como se dali surgisse a luz que nos permite ver." Para a sua surpresa, a professora gostou muito da resposta de José e a considerou a melhor da turma. O garoto não tinha certeza se tinha entendido bem a diferença. Mas, no recreio, quando viu a menina haitiana comendo suas bolachas de água e sal em um canto do pátio, notou que a tinha visto, mas nunca a tinha olhado. Pensou em como se sentiria no lugar dela. Em um país estrangeiro, cercada de muitas pessoas que tratam mal quem é ...
Giz Não há como evitar as chuvas de fevereiro, isto eu bem sei.   Mas não consigo deixar de achar uma maldade do destino o céu nublar e chorar nos dias de aniversário do luto de minha mãe. Mesmo sendo uma exigente quinta-feira, que requer trânsito e trabalho, o céu cinza, os pingos na janela e o frio acima do normal me fizeram passar a manhã entre as cobertas da minha cama. Já eram quase onze horas quando finalmente consegui levantar. Se fim de semana fosse, aguardaria logo o meio-dia e o almoço. Mas não era um dia comum. Ao que seria normal, prefiro fazer um misto-quente na frigideira, com muito queijo e manteiga, e um toddy bem doce. Uma refeição confortável e nostálgica que leva a minha memória aos cafés da manhã preparados por minha mãe, na mesa da cozinha da pequena casa em que fui criada. Quando menina, nenhum sabor se comparava àquele. Relutando contra a falta de coragem para tomar banho, me enfio em um chuveiro de água quente e lá escorrem as primeiras lágrimas do...
O sorriso de Bia A Bia é uma pessoa que, quando sorri não o faz apenas com lábios e dentes O sorriso começa ali na boca Mas logo faz seus olhos brilharem e toda a sua aura se alumiar Mesmo se ela sorri pra não chorar, falando de temas difíceis E se o sorriso não é só e vira riso A sua sonora melodia encanta qual canto de sereia Nos fazendo a querer sempre por perto. Tamanho é o poder desse sorriso Que um breve contato com ele Traz cor à chuva Inspira versos E acaricia o coração da gente. (Felipe Rocha, 11 de janeiro de 2018)
Um copo, um cigarro e um beijo I Algumas paisagens nunca cansam o olhar, por mais que os olhos envelheçam. O pôr do Sol visto do alto de um prédio na beira da praia de Copacabana era uma dessas. “ Cidade maravilhosa és minha... o poente na esquina de tuas montanhas... quase arromba a retina de quem vê ”, cantava o Chico, em uns dos versos mais bonitos sobre o Rio de Janeiro que já foram feitos. Por mais que o Beco das Garrafas carregasse toda uma história, sobretudo para um violonista de Bossa Nova, como eu, ainda preferia aceitar os convites para tocar pros grã-finos que iam fazer um happy hour no “rooftop” daquele hotel. Das décadas de boemia que marcaram a minha juventude e minha meia-idade, pouco havia restado. Lá pelos idos dos anos 70 e 80, eu ia dormir quase todos os dias de manhã (poucas vezes ia sozinho), depois de ter secado com os amigos algumas garrafas de whisky e de ter fumado alguns maços de cigarro. Veio, então, o casamento, o filho e o emprego público q...
A dança da sereia I Elena era uma sereia diferente. Como as outras, também era humana da cabeça à cintura e tinha cauda de peixe, era dona de uma estonteante beleza e versada em magias ignoradas ou esquecidas pelos habitantes da superfície. Em verdade, o que a tornava peculiar, era o modo como enfeitiçava os homens, o motivo e a frequência com que o fazia. Suas irmãs, por mera vaidade, enfeitiçavam qualquer rapaz ou senhor desavisado que passasse por perto das águas que elas habitavam entoando belíssimas canções. Até competiam entre si para ver quem delas conseguia atrair mais homens para o fundo do mar. Como era mais enquanto o Sol reinava que os pescadores, marinheiros e banhistas frequentavam aquela praia, durante o dia é que elas emergiam das profundezas. Já Elena, não encantava ninguém por maldade ou vaidade e nem o fazia com sua voz, que também era bela, mas que pouco era ouvida pelos seres terrestres. Ela gostava mesmo era de passar a maior parte do tempo dentro ...