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Canto Muitas vezes, em variadas ocasiões Por lazer, prazer ou necessidade de lúdica esperança Outras tantas Entretanto Desencanto Seja pela despedida prematura de alguém que sonhava e amava demais Seja pela constatação de uma ignorância coletiva que insiste em permanecer e se alastrar Ou em face da impotência diante dos golpes perpetrados pelos donos do poder É difícil deter o silêncio cansado em momentos tais Rompo-o, por vezes, com partituras antigas de piano que, por trazerem melodias instrumentais, mantêm a mente nesse estado flutuante de anestesia Noutras, que não são poucas Suspiro   Buscando a resiliência necessária para lembrar que o inverno sempre precede a primavera Que sonhos não envelhecem E que o porvir carece de nós que, enquanto sentimos, encontramos o sentido mais nobre da existência Que é lutar pra fazer o mundo aprender que ninguém é feliz sozinho Que ninguém é livre sozinho E que nossa relevância se encontra naquilo que fica,...
Lágrimas de homem Gosto de ver escorrerem lágrimas de homem Seja em uma tela de TV ou cinema Em um rosto diante de mim Ou mesmo no reflexo do espelho Não é que as ache engraçadas E tampouco se trata de sado ou masoquismo É que cada vez que elas escorrem Sinto que, mais um pouco, se dissolve Esse modelo tóxico de masculinidade Que reprime afetos, incita violência E que faz com que homens como eu tenham dificuldade de as derramar Ainda que sofram Ainda que amem Ou se emocionem Quem dera fosse essa represa apenas dos olhos Mas não Interditam-se os braços pros abraços Os lábios pros te amos O peito pros suspiros emocionados Gosto de ver lágrimas de homem Que expressam a catarse de uma alma cansada de tanta pressão, repressão e opressão O pranto de quem sabe a tolice que é vê-lo como um vacilo da heterossexualidade do sujeito Muitos de nós ainda se envergonham se os olhos marejam Outros tantos até se desculpam se não conseguem co...
Ar... te. Preciso das cortinas e dos palcos Da corda pulsando no pescoço enquanto canto Careço do drama soturno que molha os olhos das moças Na tela grande de um cinema Ou na voz de Bethânia Não me vejo vivo sem os versos que se espalham por meus cadernos Por minha agenda ou por livros que encontro no sebo Ou em epígrafes e epitáfios Sem as cores vivas que o pincel afiado desferiu na tela Ou as imagens retratadas com tamanha beleza Que contêm mais vida que muitas pessoas que transitam no mundo Não resistiria Mesmo a tristeza parece se esvair em fumaça nos sentimentos e nos sentidos Que lhe dão a canção e o poema Mesmo a morte parece pequena se do luto vem uma flor Cortem, se assim quiserem, minha cabeça Mas que nunca, de mim, se ausente a verve do meu pulsante coração! (Felipe Rocha, 14 de julho de 2018)
Transe                    I Estava contente porque finalmente encontrara um bom pretexto para falar com a menina mais bonita do colégio. Soube que ela gostava de rock dos anos 90, mas pouco conhecia dos Beatles. Aproveitou a “lacuna” para se dispor a gravar para ela uma fita k7 com os melhores hits da banda inglesa. Foi até melhor do que esperava. Além de ter tido uns razoáveis minutos para falar com ela sobre um tema que conhecia bem e que afastava seu nervosismo, ainda teve a honra de colocar a fita no walkman dela e de compartilhar do seu fone de ouvido na orelha esquerda. Ele tinha 16 e ela 14, mas o corpo e a postura dela faziam ele se sentir um moleque perto dela. Ainda estava pouco acostumado a ficar na escola em período integral, em razão do aumento da jornada de trabalho da sua mãe. Mas as aulas de informática, os jogos de vôlei e futebol e as aulas e inglês e de reforço escolar que tinha nas tardes de segunda à ...
A manhã Abre os olhos e sente a manhã cinza lá fora Veste o edredon como fosse uma capa Enche a caneca de café e põe muito leite em pó Aquecido por dentro, se despe da manta Sai Vê que o frio não é muito Olha o sol tímido entre as nuvens cinzentas e percebe que não faz ideia de que horas são não sabe por quanto tempo dormiu nem fome sente Sabe só o que há à sua frente Um vasto jardim de grama verde e flores coloridas que ainda carregam os orvalhos precipitados da madrugada úmida O cheiro da grama molhada traz reminiscências boas da infância Mas ele não fica ali no passado Não sai de onde está Senta confortavelmente na grande almofada da varanda e para Só se movimentam os seus olhos Ávidos por apreender toda a boniteza daquele grande cenário Estático, percebe que uma borboleta colorida pousa em seu ombro E que um grande   jabuti de aparência ancestral está à sua frente Sente-se parte da paisagem   prescinde de movimento ...
Momento Subi alto ao morro que dista do mundo que é meu Para desacelerar a correnteza do tempo que movimenta os ponteiros e amarela as folhas E para tirar o olhar do chão e mantê-lo atento ao arco superior da esfera que habito Quero ver apenas as luzes que mudam e inundam o céu com variadas cores quentes e frias Do vermelho róseo da infantil aurora ao pontilhado brilhante que perfura a noite Do amarelo ostensivo da maior estrela em meio dia, ao amarelado branco que azula a noite Molham os meus olhos essa dança astral Cansados que estão da brusquidão das coisas Sei que sonho acordado, enquanto me ausento do mundo que é meu Aceno àquela que vê mais longe Sorrindo por saber que não descanso só Fecho os olhos porque o vento me toca E, quando o faz, requer atenção detida Ganho o céu como um anjo que acorda Que voa só porque sabe o que é vida. (Felipe Rocha,  18 de maio de 2018)
Há vezes em que as cores vivas ardem nos olhos a chuva (mesmo coberta pelo vidro) esmorece o semblante até palavras de amor ganham força de berro Há vezes em que a vontade que dá é de suspender a existência ou, pelo menos, desacelerá-la até que o turbilhão flua com delicadeza É tempo de ser flor que, alheia a todo movimento (exceto ao fustigar do vento) revela sua beleza em – diria o Vinícius – lenta decomposição poética Às vezes, a percepção do intrínseco vazio ganha uma força quase de dor e afasta o efeito da imersão nas fantasias e ilusões e a palidez de uma manhã chuvosa faz emergir em nós a nostalgia que há no olhar e no suspiro de Ingrid enquanto Sam toca “As time goes by” Não cabem romances nem manifestos nem a definição de sentidos (descobertos ou inventados) nestes momentos em que a solidão revela sua solidez apenas humildes fragmentos que mais servem a quem escreve do que a quem lê carregados de uma beleza íntima, típica do que é efêmero como tudo aq...