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Poema da amizade antiga Este charuto que tragamos juntos Se traz uns dias a menos pra morte Também os anos da amizade forte Cujo cultivo faz manter seus frutos Andam os ponteiros em veloz corrida Enquanto rimos de nossas lembranças Tanto as adultas quanto as da infância Envoltos nessa poética neblina Também segredos são compartilhados E os dissabores que perturbam a gente Lembrando a nós que é forte a corrente Mesmo se grandes são os intervalos Eu posso até viver um pouco menos Enquanto enchemos o nosso cinzeiro Mas sei que vale até um ano inteiro Este encontro breve e tão intenso Que ao som de variadas melodias Permite esta troca de afetos Que só existe entre amigos velhos E que nos lembra o que é o melhor da vida. (Felipe Rocha, 17 de janeiro de 2019)

O cometa mágico

Naquela noite, o céu iluminou-se inteiro Não era nem a lua e nem as estrelas que muito brilhavam O que encandeava no céu noturno era um cometa bastante grande Cuja cor variava a depender do humor de quem o visse Para uns amarelo, para outros azul, até cor de rosa disseram que viram Mas, nem de longe, foi esse o mais estranho efeito de tal fenômeno Além de alumiar o céu, também encantou as vidas e os seus lugares Casais de meia-idade que só olhavam no outro os sinais de envelhecimento Dançaram a dois e, com vigor, namoraram entre os lençóis Velhos ranzinzas, que nutriam o tempo que lhes restava apenas com memórias do passado Vieram ao presente e até banharam de mar, lembrando-se da leveza de seus corpos Em uma lagoa, cuja beleza era oculta à noite, surgiram lanternas chinesas, sustentadas pelo fogo, que flutuavam sobre as águas e sobre o ar, como balões vermelhos que ganham os céus Nas ruas antigas, feitas de pedra, era um brilho prateado que dali provinha Até ...
Canto Muitas vezes, em variadas ocasiões Por lazer, prazer ou necessidade de lúdica esperança Outras tantas Entretanto Desencanto Seja pela despedida prematura de alguém que sonhava e amava demais Seja pela constatação de uma ignorância coletiva que insiste em permanecer e se alastrar Ou em face da impotência diante dos golpes perpetrados pelos donos do poder É difícil deter o silêncio cansado em momentos tais Rompo-o, por vezes, com partituras antigas de piano que, por trazerem melodias instrumentais, mantêm a mente nesse estado flutuante de anestesia Noutras, que não são poucas Suspiro   Buscando a resiliência necessária para lembrar que o inverno sempre precede a primavera Que sonhos não envelhecem E que o porvir carece de nós que, enquanto sentimos, encontramos o sentido mais nobre da existência Que é lutar pra fazer o mundo aprender que ninguém é feliz sozinho Que ninguém é livre sozinho E que nossa relevância se encontra naquilo que fica,...
Lágrimas de homem Gosto de ver escorrerem lágrimas de homem Seja em uma tela de TV ou cinema Em um rosto diante de mim Ou mesmo no reflexo do espelho Não é que as ache engraçadas E tampouco se trata de sado ou masoquismo É que cada vez que elas escorrem Sinto que, mais um pouco, se dissolve Esse modelo tóxico de masculinidade Que reprime afetos, incita violência E que faz com que homens como eu tenham dificuldade de as derramar Ainda que sofram Ainda que amem Ou se emocionem Quem dera fosse essa represa apenas dos olhos Mas não Interditam-se os braços pros abraços Os lábios pros te amos O peito pros suspiros emocionados Gosto de ver lágrimas de homem Que expressam a catarse de uma alma cansada de tanta pressão, repressão e opressão O pranto de quem sabe a tolice que é vê-lo como um vacilo da heterossexualidade do sujeito Muitos de nós ainda se envergonham se os olhos marejam Outros tantos até se desculpam se não conseguem co...
Ar... te. Preciso das cortinas e dos palcos Da corda pulsando no pescoço enquanto canto Careço do drama soturno que molha os olhos das moças Na tela grande de um cinema Ou na voz de Bethânia Não me vejo vivo sem os versos que se espalham por meus cadernos Por minha agenda ou por livros que encontro no sebo Ou em epígrafes e epitáfios Sem as cores vivas que o pincel afiado desferiu na tela Ou as imagens retratadas com tamanha beleza Que contêm mais vida que muitas pessoas que transitam no mundo Não resistiria Mesmo a tristeza parece se esvair em fumaça nos sentimentos e nos sentidos Que lhe dão a canção e o poema Mesmo a morte parece pequena se do luto vem uma flor Cortem, se assim quiserem, minha cabeça Mas que nunca, de mim, se ausente a verve do meu pulsante coração! (Felipe Rocha, 14 de julho de 2018)
Transe                    I Estava contente porque finalmente encontrara um bom pretexto para falar com a menina mais bonita do colégio. Soube que ela gostava de rock dos anos 90, mas pouco conhecia dos Beatles. Aproveitou a “lacuna” para se dispor a gravar para ela uma fita k7 com os melhores hits da banda inglesa. Foi até melhor do que esperava. Além de ter tido uns razoáveis minutos para falar com ela sobre um tema que conhecia bem e que afastava seu nervosismo, ainda teve a honra de colocar a fita no walkman dela e de compartilhar do seu fone de ouvido na orelha esquerda. Ele tinha 16 e ela 14, mas o corpo e a postura dela faziam ele se sentir um moleque perto dela. Ainda estava pouco acostumado a ficar na escola em período integral, em razão do aumento da jornada de trabalho da sua mãe. Mas as aulas de informática, os jogos de vôlei e futebol e as aulas e inglês e de reforço escolar que tinha nas tardes de segunda à ...
A manhã Abre os olhos e sente a manhã cinza lá fora Veste o edredon como fosse uma capa Enche a caneca de café e põe muito leite em pó Aquecido por dentro, se despe da manta Sai Vê que o frio não é muito Olha o sol tímido entre as nuvens cinzentas e percebe que não faz ideia de que horas são não sabe por quanto tempo dormiu nem fome sente Sabe só o que há à sua frente Um vasto jardim de grama verde e flores coloridas que ainda carregam os orvalhos precipitados da madrugada úmida O cheiro da grama molhada traz reminiscências boas da infância Mas ele não fica ali no passado Não sai de onde está Senta confortavelmente na grande almofada da varanda e para Só se movimentam os seus olhos Ávidos por apreender toda a boniteza daquele grande cenário Estático, percebe que uma borboleta colorida pousa em seu ombro E que um grande   jabuti de aparência ancestral está à sua frente Sente-se parte da paisagem   prescinde de movimento ...