Em perfeições Por quanto tempo irá durar a minha beleza? Tu insistes em me perguntar. Como se o viço de tua pele desvanecesse qual a areia de uma ampulheta. Não é por excesso de vaidade, nem por mermo narcisismo, disso tenho certeza. É fruto da insegurança que precede o momento em que nos tornamos par e que deriva da baixa auto-estima que – esta sim – eu não sei de onde vem. Dizer que, para mim, tu sempre serás linda é um clichê que, por mais honesto que seja – por vir de um homem apaixonado – não lhe é suficiente. Compreendo, até certo ponto, ante o contexto de amores líquidos e de vitrines virtuais que expõem falsa e superficialmente as relações em seus momentos e sentimentos, traduzindo o “mesmo” como “medíocre”. Por isso aproveito este enquanto do seu descanso, para mirar-lhe as curvas que já tão bem conheço, com as linhas e ondas que lhe marcam, e tentar descrevê-la, enquanto escrevo, como a micropaisagem que de fato é. Se não a chamo de perfeita, não é por excesso de defe...
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Quando eu fui um José Era criança ainda. Uns oito anos talvez? Foi através da voz rasgada de Paulo Diniz que ouvi os versos desesperados de Drummond Através do toca fitas de uma parati, me vi, pela primeira vez, diante de uma tradução artística do que hoje reconheço como angústia Me identifiquei, a princípio, por ser o nome do personagem igual ao meu segundo E naquele momento primeiro achei foi engraçado as variadas desventuras do José Mas, na segunda ou terceira escuta, sabe-se lá, me pus em seu lugar Me vi nas noites do domingo em que, talvez precocemente, me preocupava com o futuro do mundo e com o crescimento e a prevalência da maldade E também nos choros e clamores que mantinha preso na garganta por não conseguir expeli-los e por não ter coragem (ou não enxergar a necessidade) de pedir ajuda Na solidão profunda que sentia em tantos momentos, com a ausência de afeto e carinho ou de palavras que me fizessem ver um sentido a canção me fazia pensar no mal-estar que...
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Desempregado, Atrás de trabalho Atrás do dinheiro Atrás do salário Qualquer coisa serve pra quem, como eu, não é qualificado E que é só mais um dos tantos que estão desesperados Porque a fome não espera a carteira assinada E diariamente ela me lembra que desempregado não vale nada Até no lixo de um restaurante eu já catei o almoço do dia E ainda guardei para mais tarde o resto do resto da boia fria Até na igreja eu já fui rezando pra ter uma grande ideia Porque, o que dizem os coachs e livros é que basta isso pra sair da miséria Tô lutando com a consciência para não partir para o crime Mas é difícil ver o que eu gosto só do lado de cá da vitrine E o pior é que essa situação não me deixa dormir direito Mas pra curar a ansiedade eu também preciso de dinheiro Ainda bem que, pelo menos, filho é coisa que eu não tenho Não fosse o aborto da Maria, seria um pivete o meu rebento Há quem diga ainda que bastaria eu ter estudado Mas eu conclui o ensino médio semi-a...
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Poema da amizade antiga Este charuto que tragamos juntos Se traz uns dias a menos pra morte Também os anos da amizade forte Cujo cultivo faz manter seus frutos Andam os ponteiros em veloz corrida Enquanto rimos de nossas lembranças Tanto as adultas quanto as da infância Envoltos nessa poética neblina Também segredos são compartilhados E os dissabores que perturbam a gente Lembrando a nós que é forte a corrente Mesmo se grandes são os intervalos Eu posso até viver um pouco menos Enquanto enchemos o nosso cinzeiro Mas sei que vale até um ano inteiro Este encontro breve e tão intenso Que ao som de variadas melodias Permite esta troca de afetos Que só existe entre amigos velhos E que nos lembra o que é o melhor da vida. (Felipe Rocha, 17 de janeiro de 2019)
O cometa mágico
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Naquela noite, o céu iluminou-se inteiro Não era nem a lua e nem as estrelas que muito brilhavam O que encandeava no céu noturno era um cometa bastante grande Cuja cor variava a depender do humor de quem o visse Para uns amarelo, para outros azul, até cor de rosa disseram que viram Mas, nem de longe, foi esse o mais estranho efeito de tal fenômeno Além de alumiar o céu, também encantou as vidas e os seus lugares Casais de meia-idade que só olhavam no outro os sinais de envelhecimento Dançaram a dois e, com vigor, namoraram entre os lençóis Velhos ranzinzas, que nutriam o tempo que lhes restava apenas com memórias do passado Vieram ao presente e até banharam de mar, lembrando-se da leveza de seus corpos Em uma lagoa, cuja beleza era oculta à noite, surgiram lanternas chinesas, sustentadas pelo fogo, que flutuavam sobre as águas e sobre o ar, como balões vermelhos que ganham os céus Nas ruas antigas, feitas de pedra, era um brilho prateado que dali provinha Até ...
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Canto Muitas vezes, em variadas ocasiões Por lazer, prazer ou necessidade de lúdica esperança Outras tantas Entretanto Desencanto Seja pela despedida prematura de alguém que sonhava e amava demais Seja pela constatação de uma ignorância coletiva que insiste em permanecer e se alastrar Ou em face da impotência diante dos golpes perpetrados pelos donos do poder É difícil deter o silêncio cansado em momentos tais Rompo-o, por vezes, com partituras antigas de piano que, por trazerem melodias instrumentais, mantêm a mente nesse estado flutuante de anestesia Noutras, que não são poucas Suspiro Buscando a resiliência necessária para lembrar que o inverno sempre precede a primavera Que sonhos não envelhecem E que o porvir carece de nós que, enquanto sentimos, encontramos o sentido mais nobre da existência Que é lutar pra fazer o mundo aprender que ninguém é feliz sozinho Que ninguém é livre sozinho E que nossa relevância se encontra naquilo que fica,...
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Lágrimas de homem Gosto de ver escorrerem lágrimas de homem Seja em uma tela de TV ou cinema Em um rosto diante de mim Ou mesmo no reflexo do espelho Não é que as ache engraçadas E tampouco se trata de sado ou masoquismo É que cada vez que elas escorrem Sinto que, mais um pouco, se dissolve Esse modelo tóxico de masculinidade Que reprime afetos, incita violência E que faz com que homens como eu tenham dificuldade de as derramar Ainda que sofram Ainda que amem Ou se emocionem Quem dera fosse essa represa apenas dos olhos Mas não Interditam-se os braços pros abraços Os lábios pros te amos O peito pros suspiros emocionados Gosto de ver lágrimas de homem Que expressam a catarse de uma alma cansada de tanta pressão, repressão e opressão O pranto de quem sabe a tolice que é vê-lo como um vacilo da heterossexualidade do sujeito Muitos de nós ainda se envergonham se os olhos marejam Outros tantos até se desculpam se não conseguem co...