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À Lua cheia

Ó linda Lua, tão redonda e alva És mesmo a mais teimosa bailarina Que mesmo em noite bem escura e fria Não cessa a dança que alenta a alma Ó Lua linda, tão brilhante lua És qual criança que não para em casa E que não vê os ponteiros como espadas Porque não cansa de brincar na rua Ó linda lua, minha amante antiga De brilho intenso que os olhos não cega Mas os marejam, se são de um poeta E que do mar é a melhor amiga À Lua cheia, de brilho tão forte Que às estrelas traz bastante inveja Mesmo se o brilho em ti, ao contrário delas Vem é do Sol, que é o teu holofote. (Felipe Rocha, 13 de outubro de 2019)
Futuros amantes* "Não se afobe, não, que nada é pra já O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio Num fundo de armário Na posta-restante, milênios Milênios, no ar E quem sabe, então o Rio será Alguma cidade submersa Os escafandristas virão Explorar sua casa Seu quarto, suas coisas Sua alma, desvãos Sábios em vão entarão decifrar O eco de antigas palavras Fragmentos de cartas, poemas Mentiras, retratos Vestígios de estranha civilização Não se afobe, não, que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber Com o amor que eu um dia Deixei pra você Não se afobe, não, que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber Com o amor que eu um dia Deixei pra você" (Chico Buarque) Só mesmo aqui no Rio de Janeiro podemos ser nós mesmos. Esse teu doutorado em local tão distante da nossa terra natal veio bem a calhar. Não era para ser assim. Já estamos no terceiro milênio e nossos parentes e vizinhos a...
Ainda há Acordou cedo hoje. Antes do galo, ou talvez com ele. Mas o meu espanto não foi com esse despertar prematuro. Foi vê-la impostando sua voz retumbante após longos anos de cantares tímidos que mais se aproximavam do silêncio e do assobio. Vestia o seu xale vermelho, que eu achava que ela já não tinha, e cantava um fado triste e pungente como todos os outros que outrora compunham o seu cotidiano lisboeta. Se não soubesse que o juízo de minha mãe andava melhor que o meu, apesar de mais de oitenta, pensaria que se tratava do delírio senil de quem pensava ainda estar na mocidade. Disso não se tratava, todavia.   Tive mais certeza quando vi que meu pai a acompanhava no violão, como fazia nas casas de fado dos dias de antigamente. Talvez fosse saudade da terra natal, pois que já faziam dois anos que eles passaram a viver comigo no Brasil. Talvez tenha sido um sonho que cutucara suas memórias de vida noturna. Seja qual fosse o motivo do sara...
Em perfeições Por quanto tempo irá durar a minha beleza? Tu insistes em me perguntar. Como se o viço de tua pele desvanecesse qual a areia de uma ampulheta. Não é por excesso de vaidade, nem por mermo narcisismo, disso tenho certeza.  É fruto da insegurança que precede o momento em que nos tornamos par e que deriva da baixa auto-estima que – esta sim – eu não sei de onde vem. Dizer que, para mim, tu sempre serás linda é um clichê que, por mais honesto que seja – por vir de um homem apaixonado – não lhe é suficiente. Compreendo, até certo ponto, ante o contexto de amores líquidos e de vitrines virtuais que expõem falsa e superficialmente as relações em seus momentos e sentimentos, traduzindo o “mesmo” como “medíocre”. Por isso aproveito este enquanto do seu descanso, para mirar-lhe as curvas que já tão bem conheço, com as linhas e ondas que lhe marcam, e tentar descrevê-la, enquanto escrevo, como a micropaisagem que de fato é. Se não a chamo de perfeita, não é por excesso de defe...
Quando eu fui um José Era criança ainda. Uns oito anos talvez? Foi através da voz rasgada de Paulo Diniz que ouvi os versos desesperados de Drummond Através do toca fitas de uma parati, me vi, pela primeira vez, diante de uma tradução artística do que hoje reconheço como angústia Me identifiquei, a princípio, por ser o nome do personagem igual ao meu segundo E naquele momento primeiro achei foi engraçado as variadas desventuras do José Mas, na segunda ou terceira escuta, sabe-se lá, me pus em seu lugar Me vi nas noites do domingo em que, talvez precocemente, me preocupava com o futuro do mundo e com o crescimento e a prevalência da maldade E também nos choros e clamores que mantinha preso na garganta por não conseguir expeli-los e por não ter coragem (ou não enxergar a necessidade) de pedir ajuda Na solidão profunda que sentia em tantos momentos, com a ausência de afeto e carinho ou de palavras que me fizessem ver um sentido a canção me fazia pensar no mal-estar que...
Desempregado, Atrás de trabalho Atrás do dinheiro Atrás do salário Qualquer coisa serve pra quem, como eu, não é qualificado E que é só mais um dos tantos que estão desesperados Porque a fome não espera a carteira assinada E diariamente ela me lembra que desempregado não vale nada Até no lixo de um restaurante eu já catei o almoço do dia E ainda guardei para mais tarde o resto do resto da boia fria Até na igreja eu já fui rezando pra ter uma grande ideia Porque, o que dizem os coachs e livros é que basta isso pra sair da miséria Tô lutando com a consciência para não partir para o crime Mas é difícil ver o que eu gosto só do lado de cá da vitrine E o pior é que essa situação não me deixa dormir direito Mas pra curar a ansiedade eu também preciso de dinheiro Ainda bem que, pelo menos, filho é coisa que eu não tenho Não fosse o aborto da Maria, seria um pivete o meu rebento Há quem diga ainda que bastaria eu ter estudado Mas eu conclui o ensino médio semi-a...
Poema da amizade antiga Este charuto que tragamos juntos Se traz uns dias a menos pra morte Também os anos da amizade forte Cujo cultivo faz manter seus frutos Andam os ponteiros em veloz corrida Enquanto rimos de nossas lembranças Tanto as adultas quanto as da infância Envoltos nessa poética neblina Também segredos são compartilhados E os dissabores que perturbam a gente Lembrando a nós que é forte a corrente Mesmo se grandes são os intervalos Eu posso até viver um pouco menos Enquanto enchemos o nosso cinzeiro Mas sei que vale até um ano inteiro Este encontro breve e tão intenso Que ao som de variadas melodias Permite esta troca de afetos Que só existe entre amigos velhos E que nos lembra o que é o melhor da vida. (Felipe Rocha, 17 de janeiro de 2019)