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Um dos melhores dias dos pais de todos

                       I Era o segundo sábado de agosto quando fui dormir. No dia seguinte, eu ia almoçar na casa dos meus pais, como sempre fazia no dia dos pais. Mas a manhã seguinte foi bem diferente da que eu havia planejado. Acordei no quarto que dividia com meus irmãos na casa de dois andares onde passei minha infância. Reparei em meu próprio corpo e notei que tinha voltado a ser criança, assim como meus irmãos, que dormiam nas camas ao lado da minha. Minha reação instintiva foi procurar meu celular para ver a data. Mas, quando me lembrei que ele ainda não existia quando eu era criança, procurei saber em que dia estava através de um relógio digital de pulso que eu tinha na época e que dizia que estávamos em 8 de agosto de 1993. A princípio, um leve desespero me fez sentir um frio na barriga. No entanto, seja por já ter tido sonhos que se confundiam com a realidade ou por ter assistido muitos filmes de ficção ci...

Obrigado Caetano

  Estava no carro, sinal vermelho. Ouvi "Tigresa" do Caetano vinda da janela do carro vizinho. Por estar aberta, pude ouvir a voz de Iara da motorista, que vestia preto, um colar colorido e um rosto belo como pintura envolto por cachos rebeldes. O coração pulsou forte diante de tanta coisa bonita. Sentia saudade de um chamego de mulher, de uma mina tigresa e boêmia e queria que fosse ela comigo. Caso buzinasse, estragaria o momento, pois seria confundido com um macho tarado qualquer. Puxei caneta e papel do porta-luvas e escrevi rapidinho: "Me encantei por teu canto e teus cachos. Me liga, pelo amor de Deus!". O sinal abriu, ela seguiu um rumo diverso do meu. Mas, à noite, me ligou. Depois de nos entrelaçarmos ao som de "Elegia", ela adormeceu com seus cachos em meu peito e com os seios em meu ventre. Ao tempo em que penso: "já te amo", agradeço Caetano.

Às seis

  Me convenci de que o melhor momento de abordar é às seis da manhã. Anseio por abrir a janela e sentir a lufada de vento da primeira manhã, que é fria e amena mesmo nestas terras tropicais. Respiro fundo este ar que evoca tão boas reminiscências. Ao inspirar, me inspiro, ao expirar, suspiro. Melhor que fazer uma pausa em um dia atribulado, é começá-lo em marcha lenta, em respeito ao ritmo suave que o corpo e a mente nos pedem no início do tempo e que bem combina com o canto doce dos passarinhos que primeiro madrugam. Se escrevo sobre, é porque sinto que, ao (d)escrever, capturo a beleza do momento como se o fotografasse e torno possível resgatar essa ternura matutino com mais nitidez, em momento futuro. Viver é bom. (Felipe Rocha, 7 de agosto de 2020)

A vida para Francisco

Conheci pessoa muito interessante quando tratei-me da leucemia. Uma criança de nome Francisco, de apenas onze anos, que, assim como eu, tentava se curar daquela maldita doença. Deveria estar na ala da oncologia pediátrica, mas, segundo me explicou, por se quase adolescente e por seu pai ser médico dali do hospital, ambos preferiam que ele recebesse a quimioterapia ali junto aos adultos, para ficar mais perto de onde o pai trabalhava. Eu, de primeira viagem, me impressionei tanto com o carinho das enfermeiras e médicas no tratamento que dedicavam ao garoto – como se se tratasse de um sobrinho ou algum outro familiar mais novo -, quanto com a serenidade de Francisco, que, apesar do cabelo já ralo do tratamento, recebia a medicação sem tirar os olhos da janela de onde se podia ver o bonito jardim do hospital. Pensei em puxar assunto, mas, enquanto pensava em se e como deveria fazê-lo, foi ele quem me interrogou: Sabia que eu não tenho medo de morrer? Era uma pergunta retórica ...

A pipa na praia com meu pai

Lembro de uma manhã de domingo na minha infância em que fui com a família para a praia. Além do habitual picolé da Kibon, que me atraía com o sino do carrinho do vendedor, lembro de uma novidade desse dia: meu pai comprou para mim uma pipa - vulgo papagaio - que já estava voando no céu quando a adquirimos. Não vivi a emoção de fazer o objeto colorido alçar voo, e nem sei se conseguiria, mas só me sentir no controle de algo que voava tão alto foi sim uma experiência especial para mim. Não foi isso, entretanto, que me despertou a vontade de fazer este relato. Como a vida não é feita de clichês poéticos, durou pouco meu entusiasmo com a pipa. Antes que eu percebesse, uma outra cortou a linha que a sustentava no ar e ela saiu em queda livre para bem longe com um bando de garotos que eu nem conhecia correndo atrás do meu recém adquirido brinquedo. Fiquei indignado e reclamei para o meu pai o absurdo deles terem atrapalhado o nosso momento cortando a linha da minha pipa e rouband...

O monge e a árvore gigante

Um episódio inusitado foi aquele em que se viu o jovem monge chorar. Apesar de serem poucas suas décadas, a serenidade e a sabedoria de seus conselhos e ensinamentos pareciam não condizer com os seus olhos marejados. Dentre os curiosos para saber o motivo, um senhor engravatado sentou ao seu lado e questionou o porquê do pranto. Não só por curiosidade, mas por genuína compaixão, pois ele mesmo já contara com a ajuda do monge em um momento particularmente difícil de sua vida. Hoje faz cinco anos que o meu mestre morreu, foi como justificou a intrigante tristeza. Sem saber bem o que dizer, o ouvinte apenas respondeu: mas ele era bem velhinho né? Não é exatamente trágica a morte de um idoso por motivo de doença, não é mesmo? A indiferença do outro, contudo, não ofendeu o monge, que já estava acostumado com a miopia ocidental no olhar sobre a velhice. Dali brotaram alguns ensinamentos que merecem ser narrados, mesmo que o monge não estivesse com a intenção de fazer daquela ocasiã...

Translúcidos silêncios

I É uma das coisas boas de trabalhar com produção de resultado: fazer a própria jornada e poder se permitir “sextar” logo ao meio dia do quinto dia útil. Já faz uns anos que deixei de ser daqueles jornalistas que correm a cidade atrás de notícias e passei a ocupar o lugar privilegiado de quem só precisa apresentar uma boa reportagem a cada semana, como a que eu havia acabado de entregar para o editor-chefe. Foi essa liberdade que me permitiu aceitar o convite de uns colegas para uma comemoração da promoção que eles tinham conquistado no nosso jornal, logo no início do ano, pelo bom trabalho que fizeram no anterior.   Tive a impressão de ter sido convidado mais na qualidade de um veterano do setor no qual eles tinham recentemente ingressado, mas, ainda assim, topei, por essa afinidade que tenho com pessoas mais jovens e inteligentes que eu. Admirei-me do fato do almoço ter sido marcado no apartamento da Athena, uma das promovidas e entusiastas daquela celebração. No meu te...