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Ainda

Ainda penso em ti como refúgio ou um porto seguro  Embora, hoje, sejas saudade em mim,  Apenas isso. Ainda suspiro se vejo a foto em que deito em teu colo. Ainda lembro, mesmo que remotamente, do cheiro da tua nuca Que me fazia desejar que fosse infinita a noite como parecia ser nossa paixão Ainda o busco em outras mulheres e, se algo nelas, me lembram tu, Deixo a traiçoeira mente me levar para a memória do nosso gozo Me cativaste à primeira vista, não sei se sabes. E, ainda hoje, teu olhar e teu sorriso me desarmam. Indefeso, resigno-me com a certeza de que a recuperação do golpe demandará tempo. Enquanto espero, busco ouvidos, papeis ou cordas que dêem vazão ao sabor amargo que a saudade deixa. Uns tragos e goles também ajudam a suavizar a dor aguda do momento. Quando foi que o nosso ontem se tornou nunca mais?  às vezes me pergunto. Sei que te renunciei mais que três vezes, que me alertaste da dor que sentiria com tua falta. Não me arrependo. Contudo, não consigo evita...
 Vem meu menino bonito Vem me dizer Quantas noites faltam pro amanhecer Vem fazer teu carinho em meu mamilo Acender a fogueira, teu abrigo Tua lareira No abraço de minhas pernas Que te apertam E te trazem mais perto do meu corpo Que é delírio, deleite Mar e gozo Enquanto danças  Balança a minha cintura És o meu criador Eu criatura És o meu predador Sou toda tua No ar Luar Sou toda nua Nesta pequena morte Que é a sorte E da avidez O alívio A cura Vem, contorcer-te e envolver-me  Na tua carne Que, crua E tão tesa  E tão pura É quase arte.

Um dos melhores dias dos pais de todos

                       I Era o segundo sábado de agosto quando fui dormir. No dia seguinte, eu ia almoçar na casa dos meus pais, como sempre fazia no dia dos pais. Mas a manhã seguinte foi bem diferente da que eu havia planejado. Acordei no quarto que dividia com meus irmãos na casa de dois andares onde passei minha infância. Reparei em meu próprio corpo e notei que tinha voltado a ser criança, assim como meus irmãos, que dormiam nas camas ao lado da minha. Minha reação instintiva foi procurar meu celular para ver a data. Mas, quando me lembrei que ele ainda não existia quando eu era criança, procurei saber em que dia estava através de um relógio digital de pulso que eu tinha na época e que dizia que estávamos em 8 de agosto de 1993. A princípio, um leve desespero me fez sentir um frio na barriga. No entanto, seja por já ter tido sonhos que se confundiam com a realidade ou por ter assistido muitos filmes de ficção ci...

Obrigado Caetano

  Estava no carro, sinal vermelho. Ouvi "Tigresa" do Caetano vinda da janela do carro vizinho. Por estar aberta, pude ouvir a voz de Iara da motorista, que vestia preto, um colar colorido e um rosto belo como pintura envolto por cachos rebeldes. O coração pulsou forte diante de tanta coisa bonita. Sentia saudade de um chamego de mulher, de uma mina tigresa e boêmia e queria que fosse ela comigo. Caso buzinasse, estragaria o momento, pois seria confundido com um macho tarado qualquer. Puxei caneta e papel do porta-luvas e escrevi rapidinho: "Me encantei por teu canto e teus cachos. Me liga, pelo amor de Deus!". O sinal abriu, ela seguiu um rumo diverso do meu. Mas, à noite, me ligou. Depois de nos entrelaçarmos ao som de "Elegia", ela adormeceu com seus cachos em meu peito e com os seios em meu ventre. Ao tempo em que penso: "já te amo", agradeço Caetano.

Às seis

  Me convenci de que o melhor momento de abordar é às seis da manhã. Anseio por abrir a janela e sentir a lufada de vento da primeira manhã, que é fria e amena mesmo nestas terras tropicais. Respiro fundo este ar que evoca tão boas reminiscências. Ao inspirar, me inspiro, ao expirar, suspiro. Melhor que fazer uma pausa em um dia atribulado, é começá-lo em marcha lenta, em respeito ao ritmo suave que o corpo e a mente nos pedem no início do tempo e que bem combina com o canto doce dos passarinhos que primeiro madrugam. Se escrevo sobre, é porque sinto que, ao (d)escrever, capturo a beleza do momento como se o fotografasse e torno possível resgatar essa ternura matutino com mais nitidez, em momento futuro. Viver é bom. (Felipe Rocha, 7 de agosto de 2020)

A vida para Francisco

Conheci pessoa muito interessante quando tratei-me da leucemia. Uma criança de nome Francisco, de apenas onze anos, que, assim como eu, tentava se curar daquela maldita doença. Deveria estar na ala da oncologia pediátrica, mas, segundo me explicou, por se quase adolescente e por seu pai ser médico dali do hospital, ambos preferiam que ele recebesse a quimioterapia ali junto aos adultos, para ficar mais perto de onde o pai trabalhava. Eu, de primeira viagem, me impressionei tanto com o carinho das enfermeiras e médicas no tratamento que dedicavam ao garoto – como se se tratasse de um sobrinho ou algum outro familiar mais novo -, quanto com a serenidade de Francisco, que, apesar do cabelo já ralo do tratamento, recebia a medicação sem tirar os olhos da janela de onde se podia ver o bonito jardim do hospital. Pensei em puxar assunto, mas, enquanto pensava em se e como deveria fazê-lo, foi ele quem me interrogou: Sabia que eu não tenho medo de morrer? Era uma pergunta retórica ...

A pipa na praia com meu pai

Lembro de uma manhã de domingo na minha infância em que fui com a família para a praia. Além do habitual picolé da Kibon, que me atraía com o sino do carrinho do vendedor, lembro de uma novidade desse dia: meu pai comprou para mim uma pipa - vulgo papagaio - que já estava voando no céu quando a adquirimos. Não vivi a emoção de fazer o objeto colorido alçar voo, e nem sei se conseguiria, mas só me sentir no controle de algo que voava tão alto foi sim uma experiência especial para mim. Não foi isso, entretanto, que me despertou a vontade de fazer este relato. Como a vida não é feita de clichês poéticos, durou pouco meu entusiasmo com a pipa. Antes que eu percebesse, uma outra cortou a linha que a sustentava no ar e ela saiu em queda livre para bem longe com um bando de garotos que eu nem conhecia correndo atrás do meu recém adquirido brinquedo. Fiquei indignado e reclamei para o meu pai o absurdo deles terem atrapalhado o nosso momento cortando a linha da minha pipa e rouband...