A poesia é marginal Ela vem da borda, do limite ou da fronteira que separa a vida da morte O dia da noite O amor da saudade O olhar da beleza Da ferida latente ou latejante Dormente ou potente É que sai o fluxo que lava e leva aquilo que nos sufoca e engasga expelido do coração metafórico e metafísico, como o sangue que esvai do pulsar cardiológico A poesia é marginal Porque abraça quem não se aquieta no centro Que está sempre questionando buscando ver além Do muro, do escuro, dos sorrisos amarelos dos horizontes e das pontes que separam o desespero da esperança a moral do desejo A máscara do rosto O personagem e a persona da verídica pessoa Que mora no íntimo cercado de pedras É no mar que germinam os sonhos e medos E na margem que morrem os fantasmas do amanhã possível E é no úmido ambiente do limbo, da lágrima e do cais Que nasceram os primeiros versos Que deram sentido à vida (Felipe Rocha, 8 de dezembro de 2020)
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Futuro do pretérito
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Sonhei contigo de novo. Nada erótico ou romântico, mas um agradável reencontro. Houve carinho e toque, mas nada além de um afeto compartilhado por dois amigos. O cenário – se bem recordo – era uma cidade colonial mineira em que estávamos, cada um, com suas respectivas famílias. Vi tua mãe, tua filha, teus tios e primos e também teu marido. Não houve gatilho e tampouco ciúme, apenas a agradável nostalgia de quem percebe que já viveu bastante. Não em tempo, mas em intensidade. Enquanto tu ias ter com eles, cuidei da guria como se fosse minha. Velei o seu sono e suas brincadeiras, atento aos eventuais perigos do ambiente. Enquanto o fazia, notei na beleza daquela pequena criatura o valor que à vida o amor dá. Ao teu retorno, a devolvi ao teu colo. Já era hora de partir. Antes da despedida, entretanto, falei que tinha algo importante a dizer. Sob o teu olhar curioso, te revelei sem delongas: eu teria sido feliz contigo. Tu, então, perguntaste: mais do que é? E eu: Nã...
Ainda
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Ainda penso em ti como refúgio ou um porto seguro Embora, hoje, sejas saudade em mim, Apenas isso. Ainda suspiro se vejo a foto em que deito em teu colo. Ainda lembro, mesmo que remotamente, do cheiro da tua nuca Que me fazia desejar que fosse infinita a noite como parecia ser nossa paixão Ainda o busco em outras mulheres e, se algo nelas, me lembram tu, Deixo a traiçoeira mente me levar para a memória do nosso gozo Me cativaste à primeira vista, não sei se sabes. E, ainda hoje, teu olhar e teu sorriso me desarmam. Indefeso, resigno-me com a certeza de que a recuperação do golpe demandará tempo. Enquanto espero, busco ouvidos, papeis ou cordas que dêem vazão ao sabor amargo que a saudade deixa. Uns tragos e goles também ajudam a suavizar a dor aguda do momento. Quando foi que o nosso ontem se tornou nunca mais? às vezes me pergunto. Sei que te renunciei mais que três vezes, que me alertaste da dor que sentiria com tua falta. Não me arrependo. Contudo, não consigo evita...
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Vem meu menino bonito Vem me dizer Quantas noites faltam pro amanhecer Vem fazer teu carinho em meu mamilo Acender a fogueira, teu abrigo Tua lareira No abraço de minhas pernas Que te apertam E te trazem mais perto do meu corpo Que é delírio, deleite Mar e gozo Enquanto danças Balança a minha cintura És o meu criador Eu criatura És o meu predador Sou toda tua No ar Luar Sou toda nua Nesta pequena morte Que é a sorte E da avidez O alívio A cura Vem, contorcer-te e envolver-me Na tua carne Que, crua E tão tesa E tão pura É quase arte.
Um dos melhores dias dos pais de todos
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I Era o segundo sábado de agosto quando fui dormir. No dia seguinte, eu ia almoçar na casa dos meus pais, como sempre fazia no dia dos pais. Mas a manhã seguinte foi bem diferente da que eu havia planejado. Acordei no quarto que dividia com meus irmãos na casa de dois andares onde passei minha infância. Reparei em meu próprio corpo e notei que tinha voltado a ser criança, assim como meus irmãos, que dormiam nas camas ao lado da minha. Minha reação instintiva foi procurar meu celular para ver a data. Mas, quando me lembrei que ele ainda não existia quando eu era criança, procurei saber em que dia estava através de um relógio digital de pulso que eu tinha na época e que dizia que estávamos em 8 de agosto de 1993. A princípio, um leve desespero me fez sentir um frio na barriga. No entanto, seja por já ter tido sonhos que se confundiam com a realidade ou por ter assistido muitos filmes de ficção ci...
Obrigado Caetano
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Estava no carro, sinal vermelho. Ouvi "Tigresa" do Caetano vinda da janela do carro vizinho. Por estar aberta, pude ouvir a voz de Iara da motorista, que vestia preto, um colar colorido e um rosto belo como pintura envolto por cachos rebeldes. O coração pulsou forte diante de tanta coisa bonita. Sentia saudade de um chamego de mulher, de uma mina tigresa e boêmia e queria que fosse ela comigo. Caso buzinasse, estragaria o momento, pois seria confundido com um macho tarado qualquer. Puxei caneta e papel do porta-luvas e escrevi rapidinho: "Me encantei por teu canto e teus cachos. Me liga, pelo amor de Deus!". O sinal abriu, ela seguiu um rumo diverso do meu. Mas, à noite, me ligou. Depois de nos entrelaçarmos ao som de "Elegia", ela adormeceu com seus cachos em meu peito e com os seios em meu ventre. Ao tempo em que penso: "já te amo", agradeço Caetano.
Às seis
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Me convenci de que o melhor momento de abordar é às seis da manhã. Anseio por abrir a janela e sentir a lufada de vento da primeira manhã, que é fria e amena mesmo nestas terras tropicais. Respiro fundo este ar que evoca tão boas reminiscências. Ao inspirar, me inspiro, ao expirar, suspiro. Melhor que fazer uma pausa em um dia atribulado, é começá-lo em marcha lenta, em respeito ao ritmo suave que o corpo e a mente nos pedem no início do tempo e que bem combina com o canto doce dos passarinhos que primeiro madrugam. Se escrevo sobre, é porque sinto que, ao (d)escrever, capturo a beleza do momento como se o fotografasse e torno possível resgatar essa ternura matutino com mais nitidez, em momento futuro. Viver é bom. (Felipe Rocha, 7 de agosto de 2020)