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O cortisol matou a poesia

Depois de uma semana tão excruciante, sinto um vazio silencioso na mente e no peito que me tolhe os versos e as melodias. Há apenas a vontade de descansar sob os efeitos de um ansiolítico que nem possuo, até que amanheçam o dia e minh'alma. Fosse há 10 anos, buscaria refúgio em um happy hour regado a copos de Chopp e músicas vagabundas, na companhia de amigos, colegas e de estranhos. Fosse há dois anos, tentaria espairecer sob a tela gigante de um cinema ou divagar ao som de Chico, Belchior ou Sérgio Sampaio, enquanto dava uns tragos num charuto, num vinho ou num whisky, em boa companhia. Mas hoje me falta ânimo e saúde pra arriscar uma ressaca. Até as lágrimas me faltam. Talvez porque me seria muito custoso emocionalmente voltar a escrever os versos malditos de outrora, me resta só esse silêncio vazio da mente e do peito, que me tolhe a criatividade e a inspiração pras rimas e pra cadenciadas frases de efeito e que se expressa apenas através dessa verborragia a pretexto de de desa...

Dois pães massa grossa

  Começou a pandemia. Pânico coletivo, incertezas e desgoverno incompetente. Me veio crise de ansiedade e solidão, já que sem namorada, longe de casa porque graduando e estagiário que não teve folga, só teletrabalho. Moro em casa alugada, barata porque no centro da cidade, sem condomínio. Melhor momento do dia é o “Bom dia, Thiago!”, da dona Margarida, sempre que vou comprar o pão quentinho na padaria que também é nossa vizinha. Desde o começo da pandemia não vejo sua filha, companheira da fila do pão, com quem já tentei infrutífera paquera, apesar de mais velha, e que sempre levava o dela. Pelo estranhamento da ausência, perguntei à Dona Margarida por onde andava sua filha. Descobri, então, que, por ser enfermeira intensivista, andava longe da casa da mãe. Ainda não havia sequer vacina na época. Sem pensar muito, dei a ela o saco de pão que havia comprado e, antes de dar tempo dela me devolver, voltei à padaria dizendo que agora ia comprar o meu. Passou a ser nosso rito ...
07:00 AM Letícia foi pra janela de madrugada. Era bonita a paisagem da lua e das estrelas e era bom o friozinho de um pós-chuva, mas aquele cenário evocava saudade. Uma saudade doída mas que já não importava: Isabela ia voltar.  O violão da casa ia deixar sua mudez de lado e voltar a embalar os duetos estilo Gadu e Marisa assim que ela voltasse. O outro lado da cama finalmente vai voltar a ter cheiro de gente, pensou Letícia. O apartamento grande demais pra uma pessoa só ia deixar de esfregar em sua cara que elas estavam "apartadas" há quase um ano e voltaria a ter o aspecto de um lar acolhedor, com cores, carinhos e canções.  Ela parecia guri em véspera de praia, que quase não dorme de ansioso pelo passeio. Pensou em resgatar um cigarro de um maço antigo, mas resistiu pra não comprometer seu mais de ano sem tabaco.  Era Isabela quem levava jeito com a decoração da casa, desde as flores até a hortinha da varanda e  a posição dos porta-retratos e móveis. Letícia só se...
 A poesia é marginal Ela vem da borda, do limite ou da fronteira que separa a vida da morte O dia da noite O amor da saudade O olhar da beleza Da ferida latente ou latejante Dormente ou potente É que sai o fluxo que lava e leva aquilo que nos sufoca e engasga expelido   do coração metafórico e metafísico, como o sangue que esvai do pulsar cardiológico A poesia é marginal Porque abraça quem não se aquieta no centro Que está sempre questionando buscando ver além Do muro, do escuro, dos sorrisos amarelos dos horizontes e das pontes que separam o desespero da esperança a moral do desejo A máscara do rosto O personagem e a persona da verídica pessoa Que mora no íntimo cercado de pedras É no mar que germinam os sonhos e medos E na margem que morrem os fantasmas do amanhã possível E é no úmido ambiente do limbo, da lágrima e do cais Que nasceram os primeiros versos Que deram sentido à vida (Felipe Rocha, 8 de dezembro de 2020)

Futuro do pretérito

Sonhei contigo de novo. Nada erótico ou romântico, mas um agradável reencontro. Houve carinho e toque, mas nada além de um afeto compartilhado por dois amigos. O cenário – se bem recordo – era uma cidade colonial mineira em que estávamos, cada um, com suas respectivas famílias.  Vi tua mãe, tua filha, teus tios e primos e também teu marido. Não houve gatilho e tampouco ciúme, apenas a agradável nostalgia de quem percebe que já viveu bastante. Não em tempo, mas em intensidade. Enquanto tu ias ter com eles, cuidei da guria como se fosse minha.  Velei o seu sono e suas brincadeiras, atento aos eventuais perigos do ambiente. Enquanto o fazia, notei na beleza daquela pequena criatura o valor que à vida o amor dá. Ao teu retorno, a devolvi ao teu colo. Já era hora de partir.  Antes da despedida, entretanto, falei que tinha algo importante a dizer. Sob o teu olhar curioso, te revelei sem delongas: eu teria sido feliz contigo.  Tu, então, perguntaste: mais do que é? E eu: Nã...

Ainda

Ainda penso em ti como refúgio ou um porto seguro  Embora, hoje, sejas saudade em mim,  Apenas isso. Ainda suspiro se vejo a foto em que deito em teu colo. Ainda lembro, mesmo que remotamente, do cheiro da tua nuca Que me fazia desejar que fosse infinita a noite como parecia ser nossa paixão Ainda o busco em outras mulheres e, se algo nelas, me lembram tu, Deixo a traiçoeira mente me levar para a memória do nosso gozo Me cativaste à primeira vista, não sei se sabes. E, ainda hoje, teu olhar e teu sorriso me desarmam. Indefeso, resigno-me com a certeza de que a recuperação do golpe demandará tempo. Enquanto espero, busco ouvidos, papeis ou cordas que dêem vazão ao sabor amargo que a saudade deixa. Uns tragos e goles também ajudam a suavizar a dor aguda do momento. Quando foi que o nosso ontem se tornou nunca mais?  às vezes me pergunto. Sei que te renunciei mais que três vezes, que me alertaste da dor que sentiria com tua falta. Não me arrependo. Contudo, não consigo evita...
 Vem meu menino bonito Vem me dizer Quantas noites faltam pro amanhecer Vem fazer teu carinho em meu mamilo Acender a fogueira, teu abrigo Tua lareira No abraço de minhas pernas Que te apertam E te trazem mais perto do meu corpo Que é delírio, deleite Mar e gozo Enquanto danças  Balança a minha cintura És o meu criador Eu criatura És o meu predador Sou toda tua No ar Luar Sou toda nua Nesta pequena morte Que é a sorte E da avidez O alívio A cura Vem, contorcer-te e envolver-me  Na tua carne Que, crua E tão tesa  E tão pura É quase arte.