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Pelas persianas

Acho que o melhor da vida é quando acordamos com a impressão de ainda estar  sonhando.  Assim me senti quando despertei entre os lençóis e as pernas da artista que é um ser grande e belo demais para ser limitado por um nome. São difíceis e raros os momentos em que os ponteiros dos relógios se dissolvem e a ideia abstrata de tempo é percebida apenas pelo surgimento da fome e do desejo, após o intervalo ditado pelos momentos de saciedade. Não só o seu corpo curvilíneo, mas também o eco de sua voz e de suas ideias em mim, mesmo em momento de silêncio e repouso, me faziam contemplá-la como quem está diante de um lago de águas cálidas. Que sabe que, caso se atreva a nele entrar, dificilmente voltará a dele emergir. Olhando os raios laranjas e dourados do poente que transpassavam as persianas da janela, sorri sozinho ao perceber que era verdade o que ela dissera sobre ser linda a golden hour em seu apartamento. “Faz um café pra gente”. Ela pediu num tom morno e com um carinh...

Pela fresta

Eu tinha bebido tanta cerveja e estava tão apertado que não lembrei de fechar a porta do banheiro masculino antes de usar o mictório. Não seria nada demais se eu não percebesse, enquanto ainda esvaziava a bexiga, que era observado por uma moça do cabelo loiro platinado, batom vermelho, blusa preta, short jeans, meia arrastão e salto alto. Ela esperava o banheiro feminino desocupar fumando um cigarro e me observando pela fresta da porta que eu deixara aberta. Quando virei o pescoço para a esquerda e vi o rosto da moça, ela sorriu sem mostrar os dentes e sem desviar o olhar do meu rosto envergonhado. Como a bexiga ainda não tinha secado por completo, voltei os olhos ao mictório, como se um mero desvio de olhar tivesse o mesmo efeito que fechar a porta. Não teve. Apesar de toda essa cena constrangedora ter durado uma fração de segundos, foi o suficiente para eu reconhecê-la como sendo uma artista plástica local que pintava corpos masculinos e femininos em obras que já tinham sido ...

A valsa real

Sozinho no coreto da praça, o às apreciava o florido jardim do reino.  Estava tranquilo e sereno, mas mesmo aquela colorida beleza não afastara a seriedade do seu semblante. . Eis que aparece em sua frente o coringa. Mestre das ilusões e dos disfarces.  Sua presença trouxera, ainda, uma festiva canção, embora não se visse banda que a tocasse. O às, ainda sério, disse ao palhaço, eu sei que isto não é real. Que não passa de ilusão! O coringa retrucou: Tolo, é real tudo que a gente quer e que conseguimos acreditar que seja!  Pois, nada há de objetivo e é muito tênue esta fronteira! Um inédito sorriso formou-se no rosto do às, que começou a dançar no mesmo (com)passo que o coringa.  Quem os via de longe estranhou.  O valete o chamou  de ridículo pois não conseguia ouvir a música que ele dançava. A rainha fez troça porque não enxergava o par daquela excêntrica valsa. O rei, que, por ser mais velho, era mais frágil e, porém, mais sábio, logo percebeu o que suced...

Ela

A palavra "ela" nunca teve um significado tão bonito e delicado.  É assim que denomino a aprendiz de bailarina que me enfeitiça enquanto ensaia (ou que ensaia enquanto me enfeitiça) porque não tive o privilégio de saber seu nome.  Na falta do prenome, me contento com o pronome.  Enquanto trato de minhas dores de soldado ferido, no lado A do salão, Ela dança, no lado B, graciosa, com suas colegas repetindo os mesmos movimentos.  Mas, pro meu olhar, é como se de um solo se tratasse. Como se de um Sol - que ofusca o brilho das demais estrelas - se tratasse O holofote que meu desejo, suspirando, põe sobre ela faz das outras sombras cujos movimentos são meros satélites da que magnetiza o meu humilde olhar.  Que, de tão inebriado e apaixonado, esquece que há realidades além da bela tela que vê.  E que esquece, ainda que por breve instante, que há movimento e palavras e vida fora daquele mo(vi)mento.  E só me percebo novamente enquanto ser autônomo, feito de ...
O despertar tem de ser leve Como um anime ghibli, Um sol das seis, que brilha sem arder Um acabou chorare na vitrola Ou o acordar do teu filho pequeno, com a cara inchada de sono. Sem mensagens sérias no zap Sem más notícias de jornais  Cabe bem um abraço longo e largo Ou até um sexo matinal  Pra ter força e paciência pros desafios vindouros É importante chegar, no dia novo que nasce, com ternura e delicadeza, Como fosse um balão em suave pouso  Como o azul bebê do céu que sucede o róseo Como a voz de Geraldo Azevedo Um poema de Manoel de Barros ou de Thiago de Mello O despertar tem de ser leve Como o suspiro de Deus que acalenta os corações inquietos. (Felipe Rocha, 16 de junho de 2021)

O cortisol matou a poesia

Depois de uma semana tão excruciante, sinto um vazio silencioso na mente e no peito que me tolhe os versos e as melodias. Há apenas a vontade de descansar sob os efeitos de um ansiolítico que nem possuo, até que amanheçam o dia e minh'alma. Fosse há 10 anos, buscaria refúgio em um happy hour regado a copos de Chopp e músicas vagabundas, na companhia de amigos, colegas e de estranhos. Fosse há dois anos, tentaria espairecer sob a tela gigante de um cinema ou divagar ao som de Chico, Belchior ou Sérgio Sampaio, enquanto dava uns tragos num charuto, num vinho ou num whisky, em boa companhia. Mas hoje me falta ânimo e saúde pra arriscar uma ressaca. Até as lágrimas me faltam. Talvez porque me seria muito custoso emocionalmente voltar a escrever os versos malditos de outrora, me resta só esse silêncio vazio da mente e do peito, que me tolhe a criatividade e a inspiração pras rimas e pra cadenciadas frases de efeito e que se expressa apenas através dessa verborragia a pretexto de de desa...

Dois pães massa grossa

  Começou a pandemia. Pânico coletivo, incertezas e desgoverno incompetente. Me veio crise de ansiedade e solidão, já que sem namorada, longe de casa porque graduando e estagiário que não teve folga, só teletrabalho. Moro em casa alugada, barata porque no centro da cidade, sem condomínio. Melhor momento do dia é o “Bom dia, Thiago!”, da dona Margarida, sempre que vou comprar o pão quentinho na padaria que também é nossa vizinha. Desde o começo da pandemia não vejo sua filha, companheira da fila do pão, com quem já tentei infrutífera paquera, apesar de mais velha, e que sempre levava o dela. Pelo estranhamento da ausência, perguntei à Dona Margarida por onde andava sua filha. Descobri, então, que, por ser enfermeira intensivista, andava longe da casa da mãe. Ainda não havia sequer vacina na época. Sem pensar muito, dei a ela o saco de pão que havia comprado e, antes de dar tempo dela me devolver, voltei à padaria dizendo que agora ia comprar o meu. Passou a ser nosso rito ...