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O sal da terra

O sal do teu suor é o sal da terra,  Que minha língua sorve e que semeia e cultiva, no leito do meu corpo, os sentimentos e sensações mais intensas, mais lúdicas e mais lúcidas. Teu sal e tua saliva, teu seio e teu sexo me fazem ir tanto além de mim que, mesmo na saudade, cede a dor lugar ao sorriso, ao sonho e a versos vibrantes e coloridos que me fazem tornar a ser adolescente sob a vertigem da paixão primeira de um menino. Salto solto, se te ausentas, e vôo ao vento, de peito aberto, como as notas nas linhas da partitura de uma virtuosa melodia. Salto ciente de que a vida é milagre, mesmo que um breve sopro. E sinto que hoje sou tudo, mesmo se amanhã eu morro.  (Felipe Rocha, 18 de setembro de 2021)
 Hoje sonhei novamente com vovô. Talvez porque este ano faz dez anos que ele partiu. Talvez porque tenho refletido bastante sobre masculinidades e seus efeitos sobre os diversos papéis que o homem ocupa ao longo da vida, como marido, pai, filho e avô.   Ou talvez porque, cada vez mais, me sei árvore, que, para ter tronco longo e largo e espalhar seus galhos, folhas, flores e frutos pelo céu, carece de raízes fortes que adentram fundo na terra. Ele estava bem. Não só tinha a compleição física cheinha e corada, mas também estava isento da senilidade dos últimos anos. Em um primeiro momento, assustou-se por ter passado “50 anos dormindo”, referindo-se ao tempo em que ficara senil. Não entendi muito bem porque dos 50, se, pelos meus cálculos, foram apenas uns 15, mas não é o meu ego racional que cria o roteiro dos sonhos.   Talvez os 50 anos venham do quanto representa a ausência de 25 anos para quem só viveu 37. Ou talvez de um medo inconsciente de que, daqui a 50 anos...

Pelas persianas

Acho que o melhor da vida é quando acordamos com a impressão de ainda estar  sonhando.  Assim me senti quando despertei entre os lençóis e as pernas da artista que é um ser grande e belo demais para ser limitado por um nome. São difíceis e raros os momentos em que os ponteiros dos relógios se dissolvem e a ideia abstrata de tempo é percebida apenas pelo surgimento da fome e do desejo, após o intervalo ditado pelos momentos de saciedade. Não só o seu corpo curvilíneo, mas também o eco de sua voz e de suas ideias em mim, mesmo em momento de silêncio e repouso, me faziam contemplá-la como quem está diante de um lago de águas cálidas. Que sabe que, caso se atreva a nele entrar, dificilmente voltará a dele emergir. Olhando os raios laranjas e dourados do poente que transpassavam as persianas da janela, sorri sozinho ao perceber que era verdade o que ela dissera sobre ser linda a golden hour em seu apartamento. “Faz um café pra gente”. Ela pediu num tom morno e com um carinh...

Pela fresta

Eu tinha bebido tanta cerveja e estava tão apertado que não lembrei de fechar a porta do banheiro masculino antes de usar o mictório. Não seria nada demais se eu não percebesse, enquanto ainda esvaziava a bexiga, que era observado por uma moça do cabelo loiro platinado, batom vermelho, blusa preta, short jeans, meia arrastão e salto alto. Ela esperava o banheiro feminino desocupar fumando um cigarro e me observando pela fresta da porta que eu deixara aberta. Quando virei o pescoço para a esquerda e vi o rosto da moça, ela sorriu sem mostrar os dentes e sem desviar o olhar do meu rosto envergonhado. Como a bexiga ainda não tinha secado por completo, voltei os olhos ao mictório, como se um mero desvio de olhar tivesse o mesmo efeito que fechar a porta. Não teve. Apesar de toda essa cena constrangedora ter durado uma fração de segundos, foi o suficiente para eu reconhecê-la como sendo uma artista plástica local que pintava corpos masculinos e femininos em obras que já tinham sido ...

A valsa real

Sozinho no coreto da praça, o às apreciava o florido jardim do reino.  Estava tranquilo e sereno, mas mesmo aquela colorida beleza não afastara a seriedade do seu semblante. . Eis que aparece em sua frente o coringa. Mestre das ilusões e dos disfarces.  Sua presença trouxera, ainda, uma festiva canção, embora não se visse banda que a tocasse. O às, ainda sério, disse ao palhaço, eu sei que isto não é real. Que não passa de ilusão! O coringa retrucou: Tolo, é real tudo que a gente quer e que conseguimos acreditar que seja!  Pois, nada há de objetivo e é muito tênue esta fronteira! Um inédito sorriso formou-se no rosto do às, que começou a dançar no mesmo (com)passo que o coringa.  Quem os via de longe estranhou.  O valete o chamou  de ridículo pois não conseguia ouvir a música que ele dançava. A rainha fez troça porque não enxergava o par daquela excêntrica valsa. O rei, que, por ser mais velho, era mais frágil e, porém, mais sábio, logo percebeu o que suced...

Ela

A palavra "ela" nunca teve um significado tão bonito e delicado.  É assim que denomino a aprendiz de bailarina que me enfeitiça enquanto ensaia (ou que ensaia enquanto me enfeitiça) porque não tive o privilégio de saber seu nome.  Na falta do prenome, me contento com o pronome.  Enquanto trato de minhas dores de soldado ferido, no lado A do salão, Ela dança, no lado B, graciosa, com suas colegas repetindo os mesmos movimentos.  Mas, pro meu olhar, é como se de um solo se tratasse. Como se de um Sol - que ofusca o brilho das demais estrelas - se tratasse O holofote que meu desejo, suspirando, põe sobre ela faz das outras sombras cujos movimentos são meros satélites da que magnetiza o meu humilde olhar.  Que, de tão inebriado e apaixonado, esquece que há realidades além da bela tela que vê.  E que esquece, ainda que por breve instante, que há movimento e palavras e vida fora daquele mo(vi)mento.  E só me percebo novamente enquanto ser autônomo, feito de ...
O despertar tem de ser leve Como um anime ghibli, Um sol das seis, que brilha sem arder Um acabou chorare na vitrola Ou o acordar do teu filho pequeno, com a cara inchada de sono. Sem mensagens sérias no zap Sem más notícias de jornais  Cabe bem um abraço longo e largo Ou até um sexo matinal  Pra ter força e paciência pros desafios vindouros É importante chegar, no dia novo que nasce, com ternura e delicadeza, Como fosse um balão em suave pouso  Como o azul bebê do céu que sucede o róseo Como a voz de Geraldo Azevedo Um poema de Manoel de Barros ou de Thiago de Mello O despertar tem de ser leve Como o suspiro de Deus que acalenta os corações inquietos. (Felipe Rocha, 16 de junho de 2021)