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Lucidez

Luísa não queria dormir. À noite não dava trabalho. Mas, pras sonecas do dia, ela se recusava a adormecer, mesmo estando com sono Seus olhos vívidos e brilhantes, que ela insistia em manter abertos, pareciam dizer que havia muitas cores,  paisagens e movimentos que mereciam sua atenção. Foi como quando, aos 14, comecei a usar óculos e passei uma tarde inteira com o disc-man no ouvido e passeando pela rua do meu condominio observando o céu, as casas, as flores e tudo o mais que deslumbrava o meu olhar de nitidez recentemente recuperada. O olhar de Luísa me  convidou a resgatar essa curiosidade contemplativa sobre o mundo e me pus a tentar vê-lo com a mesma avidez com que ela o enxergava.  Deitado no tapete em que ela brincava, costas no chão e olhar para o céu, vi, no espaço entre as telhas e as flores lilases que balançavam sob o agito do vento, as nuvens brancas que passeavam devagar pelo azul claro do céu. Em um nível mais próximo de mim, vi e ouvi os passarinhos que fl...

Canção noturna

Depois de tanto riso solto   e espairecimento de um difícil hoje E da imersão boêmia provocada pelas canções que escolheste Um círculo de vinho tinto que escorre da taça se forma na folha do livro em que está o teu poema preferido, Quando repousas ela pra me beijar a boca Línguas úmidas, mão, cabelo e nuca Corpos que se encontram Delicioso atrito do meu peito com teu seio Sem qualquer pressa ou urgência Degustamos pacientemente um momento   talvez único Como pode caber tanto desejo em uma madrugada? Teu sorriso, tuas tatuagens Tua voz ou tua perspicácia O que me fez cair no encanto que te faz centro? A lua já subiu alta, mas as estrelas e a brisa noturna fazem perfeita a paisagem desta varanda Sob o teu corpo, mãos sob a renda que estão sob o teu vestido Te percorro e em ti adentro após gentil convite Pulsão de vida que lateja   e me arrebata Enquanto envolto em teu perfume e em teu sabor inebriante Sinto que já valeria a vida só aque...

Carta para meus filhos sobre as esperanças de outubro

Queridos Luísa e Marcos, outubro chegou nos trazendo esperança. Uma mudança importante no cenário político e social tenebroso que estamos vivendo se aproxima de nós e se torna cada vez mais palpável,  fazendo pulsar esse sentimento teimoso de esperança mesmo em quem já está calejado pelos golpes da vida e reluta em se entregar ao otimismo.  Não há como não pensar em vocês enquanto reflito sobre isso porque eu desejo que vocês vivam e cresçam em um mundo muito melhor do que ele seria se o grupo que está no poder permanecesse. Acompanhar vocês crescendo e se desenvolvendo também é algo que, em si, já me traz otimismo. Este mês Marcos aprendeu a virar de bruços sozinho, depois de empreender muito esforço nas primeiras tentativas até finalmente conseguir. Lulu está cada vez mais falante e sorridente e querendo ficar de pé quando seguramos as mãozinhas dela. E os dois já têm muito mais equilíbrio quando ficam sentados. São pequenas conquistas que podem parecer insignificantes pra q...

Metalinguagem

  O que não vivo inspira muito do que desejo. O que desejo inspira muito do que eu escrevo. Por isso muito do que eu escrevo é do que não vivo. Para sentir algum lampejo do que não alcanço, deixo de olhar o mundo real à frente de mim para imergir nas fantasias que minha imaginação cria e colocá-las no papel. No entanto, por vezes um preciosismo requer um retorno ao real para que as estórias adquiram verossimilhança. Em raros casos, ao fazer isso, percebo que o almejado está ao alcance do toque. Como se me tornasse o personagem que acabei de criar e apresentasse a sua narrativa não com palavras, mas com movimentos. Hoje isso aconteceu. Ao parar na praia para buscar inspiração pra um texto inacabado - sobre um sujeito que decide mergulhar no mar em um pôr-do-Sol de terça-feira, depois de perceber, em um engarrafamento voltando do trabalho, que o mundo ao seu redor paralisara e que apenas o mar mantinha o seu perpétuo movimento -, eu decidi sentir, ainda que brevemente, ...

Carta pros meus filhos sobre os bons ventos de setembro

  Amados filhos Marcos e Luísa, o mês de setembro nos trouxe ventos muito agradáveis. As chuvas são raras neste mês, mas, apesar disso, o tempo está bem agradável, com ventos que amenizam o calor típico da nossa cidade. Isso nos tem permitido passar muitos bons momentos com vocês nas redes ou nas cadeiras de balanço da varanda da casa da vovó Jesus ou mesmo andando pelo jardim florido. Também em sentido metafórico posso dizer que setembro nos trouxe bons ventos. A primeira gripe de vocês melhorou logo no início do mês, o vovô Juarez voltou pra casa depois de 40 dias com a prima Lara, o tio Juba e a tia Anaceli, eu voltei a cuidar mais do corpo, fazendo bicicleta ergométrica e ginástica e a impressão que tenho é que eu, a mamãe e todo mundo que nos ajuda a cuidar de vocês temos nos sentido cada vez mais confiantes e seguros e temos conseguido levar com cada vez mais leveza essa tarefa de garantir que vocês cresçam e se desenvolvam com saúde. Mas, mais do que contextualizar o c...

Avós: um plural feminino

Refletindo sobre a data de hoje, o dia dos avós, constatei algo interessante: a palavra “avó” é o único substantivo feminino que não se converte em masculino ao se tornar plural e abranger os do outro gênero. Irmão e irmã se tornam “irmãos”, pai e mãe se tornam “pais”, tio e tia se tornam “tios”, mas avô e avó se tornam “avós”, não “avôs”. Por quê? Não sei. A princípio cogitei que talvez tenha a ver com as estatísticas que revelam a maior longevidade das nossas avós em comparação com seus maridos. Porém, depois pensei que faz mais sentido essa aparente “transgressão consentida” à regra geral da gramática decorrer da importância dessas mulheres nas famílias brasileiras. Afinal, não é à toa que nós chamamos sempre “casa de(a) vó”, mesmo se o avô ainda está vivo e mesmo que o imóvel esteja no nome dele. Expressão essa que, no meu imaginário (e acredito que no de muita gente), carrega a ideia de um lugar de aconchego e abrigo, que está sempre de portas abertas a nos receber, sem prec...

No caminho certo

Estava com meu bebê no colo,  depois do almoço, e recebi uma feliz notícia pelo celular: o dinheiro do precatório de uma cliente de 101 anos que estava prestes a ser devolvido para o Tesouro Nacional em virtude da burocracia do banco finalmente caíra na conta dela. Eu me emocionei com a notícia. Não só por saber que provavelmente a cliente não receberia o crédito em vida se ele tivesse retornado ao Tesouro Nacional, mas porque foi um daqueles casos em que a sensibilização do advogado, do juiz e dos servidores da Justiça Federal fez toda a diferença.  Não fossem as várias conversas que tive com o magistrado, com o assessor e com a secretaria da vara; não fosse o juiz ter antecipado o atendimento que eu havia agendado para poder me atender antes de sair de férias e ter despachado mesmo estando, em tese, de férias, nós não teríamos conseguido impedir que o crédito retornasse ao Tesouro Nacional. Em uma semana de muita dor de cabeça causada por estelionatários que estão se passand...