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Ainda é manhã

Em um dia cinzento e escuro de tão chuvoso (graças a Deus um sábado!), me permiti ficar somente em casa. Acordei cedo porque já não sei dormir até tarde. Em vez de teimar com o meu alarme interno que sempre me põe de pé às 06:00, e por mais tentador que fosse o calor e o conforto do edredom, dei início ao dia. Em ritmo lento e tranquilo, entretanto. Café no coador, ovos na frigideira e pão massa grossa na sanduicheira, liguei o rádio na 106,9 para ouvir um “FMPB” carregado de músicas suaves e nostálgicas, que minha mãe escutava no caminho pro colégio.  Depois de me aquecer por dentro com essa primeira refeição, um mamão com chia encerrou o meu desjejum.  Já faz tempo que faço do banho um momento de higienizar, também, a mente. Por isso, depois de escovar os dentes, pus no spotify um jazz adequado  à leveza matutina,  liguei o chuveiro em uma água morna que me fez ter muita vontade de ter uma banheira em casa e coloquei na tomada um aromatizador de ambientes que ganha...

Carta do mês de aniversário da melhor pessoa do mundo

Queridos Luísa e Marcos, hoje, dia 8 de dezembro de 2022, comemoraremos o aniversário da pessoa que eu costumo dizer que é a melhor pessoa do mundo, que é ninguém mais do que a mãe de vocês. Ela contesta essa alcunha por considerar que há um claro e tendencioso exagero da minha parte, mas garanto a vocês que é de verdade. Talvez vocês se perguntem ou me perguntem como posso afirmar que ela é a melhor pessoa do mundo se eu não conheço todas as pessoas do mundo. Pergunta bastante perspicaz, mas cuja resposta eu tenho na ponta da língua: É simples. Ela é a melhor pessoa do meu mundo, do mundo que eu conheço. Isso mesmo. Ainda hoje me sinto muito grato e sortudo por ter tido não só a oportunidade de conhecer e conviver com ela, mas de ter sido escolhido como a pessoa com quem ela desejava compartilhar a vida e criar uma família. Não sei se vocês já sabem disso, mas, desde o dia em que a vi pela primeira vez, eu tive a impressão/sensação de que ela poderia ser minha namorada. Nós nos ...

Lucidez

Luísa não queria dormir. À noite não dava trabalho. Mas, pras sonecas do dia, ela se recusava a adormecer, mesmo estando com sono Seus olhos vívidos e brilhantes, que ela insistia em manter abertos, pareciam dizer que havia muitas cores,  paisagens e movimentos que mereciam sua atenção. Foi como quando, aos 14, comecei a usar óculos e passei uma tarde inteira com o disc-man no ouvido e passeando pela rua do meu condominio observando o céu, as casas, as flores e tudo o mais que deslumbrava o meu olhar de nitidez recentemente recuperada. O olhar de Luísa me  convidou a resgatar essa curiosidade contemplativa sobre o mundo e me pus a tentar vê-lo com a mesma avidez com que ela o enxergava.  Deitado no tapete em que ela brincava, costas no chão e olhar para o céu, vi, no espaço entre as telhas e as flores lilases que balançavam sob o agito do vento, as nuvens brancas que passeavam devagar pelo azul claro do céu. Em um nível mais próximo de mim, vi e ouvi os passarinhos que fl...

Canção noturna

Depois de tanto riso solto   e espairecimento de um difícil hoje E da imersão boêmia provocada pelas canções que escolheste Um círculo de vinho tinto que escorre da taça se forma na folha do livro em que está o teu poema preferido, Quando repousas ela pra me beijar a boca Línguas úmidas, mão, cabelo e nuca Corpos que se encontram Delicioso atrito do meu peito com teu seio Sem qualquer pressa ou urgência Degustamos pacientemente um momento   talvez único Como pode caber tanto desejo em uma madrugada? Teu sorriso, tuas tatuagens Tua voz ou tua perspicácia O que me fez cair no encanto que te faz centro? A lua já subiu alta, mas as estrelas e a brisa noturna fazem perfeita a paisagem desta varanda Sob o teu corpo, mãos sob a renda que estão sob o teu vestido Te percorro e em ti adentro após gentil convite Pulsão de vida que lateja   e me arrebata Enquanto envolto em teu perfume e em teu sabor inebriante Sinto que já valeria a vida só aque...

Carta para meus filhos sobre as esperanças de outubro

Queridos Luísa e Marcos, outubro chegou nos trazendo esperança. Uma mudança importante no cenário político e social tenebroso que estamos vivendo se aproxima de nós e se torna cada vez mais palpável,  fazendo pulsar esse sentimento teimoso de esperança mesmo em quem já está calejado pelos golpes da vida e reluta em se entregar ao otimismo.  Não há como não pensar em vocês enquanto reflito sobre isso porque eu desejo que vocês vivam e cresçam em um mundo muito melhor do que ele seria se o grupo que está no poder permanecesse. Acompanhar vocês crescendo e se desenvolvendo também é algo que, em si, já me traz otimismo. Este mês Marcos aprendeu a virar de bruços sozinho, depois de empreender muito esforço nas primeiras tentativas até finalmente conseguir. Lulu está cada vez mais falante e sorridente e querendo ficar de pé quando seguramos as mãozinhas dela. E os dois já têm muito mais equilíbrio quando ficam sentados. São pequenas conquistas que podem parecer insignificantes pra q...

Metalinguagem

  O que não vivo inspira muito do que desejo. O que desejo inspira muito do que eu escrevo. Por isso muito do que eu escrevo é do que não vivo. Para sentir algum lampejo do que não alcanço, deixo de olhar o mundo real à frente de mim para imergir nas fantasias que minha imaginação cria e colocá-las no papel. No entanto, por vezes um preciosismo requer um retorno ao real para que as estórias adquiram verossimilhança. Em raros casos, ao fazer isso, percebo que o almejado está ao alcance do toque. Como se me tornasse o personagem que acabei de criar e apresentasse a sua narrativa não com palavras, mas com movimentos. Hoje isso aconteceu. Ao parar na praia para buscar inspiração pra um texto inacabado - sobre um sujeito que decide mergulhar no mar em um pôr-do-Sol de terça-feira, depois de perceber, em um engarrafamento voltando do trabalho, que o mundo ao seu redor paralisara e que apenas o mar mantinha o seu perpétuo movimento -, eu decidi sentir, ainda que brevemente, ...

Carta pros meus filhos sobre os bons ventos de setembro

  Amados filhos Marcos e Luísa, o mês de setembro nos trouxe ventos muito agradáveis. As chuvas são raras neste mês, mas, apesar disso, o tempo está bem agradável, com ventos que amenizam o calor típico da nossa cidade. Isso nos tem permitido passar muitos bons momentos com vocês nas redes ou nas cadeiras de balanço da varanda da casa da vovó Jesus ou mesmo andando pelo jardim florido. Também em sentido metafórico posso dizer que setembro nos trouxe bons ventos. A primeira gripe de vocês melhorou logo no início do mês, o vovô Juarez voltou pra casa depois de 40 dias com a prima Lara, o tio Juba e a tia Anaceli, eu voltei a cuidar mais do corpo, fazendo bicicleta ergométrica e ginástica e a impressão que tenho é que eu, a mamãe e todo mundo que nos ajuda a cuidar de vocês temos nos sentido cada vez mais confiantes e seguros e temos conseguido levar com cada vez mais leveza essa tarefa de garantir que vocês cresçam e se desenvolvam com saúde. Mas, mais do que contextualizar o c...