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Fuga

Era terça de carnaval, quase meia noite, quando os mascarados se encontraram. Ele de fantasma da ópera e ela de cisne negro. Por não tê-la reconhecido por trás da maquiagem e da máscara negra, perguntou: Quem é você? Contudo, seja por ter entendido ser outro o objetivo da pergunta ou por simples desejo de manter o mistério de sua identidade, ela respondeu apenas: o Cisne negro. Ele sorriu e não insistiu na inquirição. Nem era de fumar, mas, ah porra!, era carnaval. Pediu, então, para ela, como Oswald o faria: Me dá um cigarro? Sem que ele soubesse se era para conservar o maço ou por alguma intenção seduzente, ela lhe ofereceu aquele já aceso que fumava. Ele pode sentir um pouco do seu doce hálito quando tocou os lábios na marca de batom que ela deixara no filtro e o trago desceu como um suspiro. Ante a súbita precipitação da chuva, ele, meio que sem pensar, estendeu sobre ela a capa de sua fantasia. Ocasião em que ela percebeu que, ao contrário da sua, que revelav...

Noturno

A bailarina valsa Como boneca de porcelana Flutuando sobre o palco Como a flor que nasce  Abrindo suas pétalas  Sem ferir a planta Desejo a bailarina que voa E inebria os meus sonhos Derretendo o impossível  Mas respeito o momento que é seu Em silêncio solene e contemplativo De quem parece conseguir desacelerar o tempo Para olhar de perto a beleza fugidia O orvalho madrugal que é verve em meus olhos Escorre com mais delicadeza que o que vem da pétala fustigada pelo pouso da borboleta ou do beija-flor Sei que haverá o momento da pele De maciez do toque no corpo sob a seda Mas, enquanto não,  É tempo de poema De ser grato à reinvenção do ser  Que a indolente bailarina descobre enquanto passeia Na mesma cadência dos martelos sobre as cordas do piano Espalhando a magia que encanta o meu olhar E que realça o brilho das estrelas que tornam azul o céu noturno,  Invadindo o meu peito e o meu ser que Às vezes esquece que, acima de tudo É movido pelo amor que faz pul...

À Lua cheia

Ó linda Lua, tão redonda e alva És mesmo a mais teimosa bailarina Que mesmo em noite bem escura e fria Não cessa a dança que alenta a alma Ó Lua linda, tão brilhante lua És qual criança que não para em casa E que não vê os ponteiros como espadas Porque não cansa de brincar na rua Ó linda lua, minha amante antiga De brilho intenso que os olhos não cega Mas os marejam, se são de um poeta E que do mar é a melhor amiga À Lua cheia, de brilho tão forte Que às estrelas traz bastante inveja Mesmo se o brilho em ti, ao contrário delas Vem é do Sol, que é o teu holofote. (Felipe Rocha, 13 de outubro de 2019)
Futuros amantes* "Não se afobe, não, que nada é pra já O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio Num fundo de armário Na posta-restante, milênios Milênios, no ar E quem sabe, então o Rio será Alguma cidade submersa Os escafandristas virão Explorar sua casa Seu quarto, suas coisas Sua alma, desvãos Sábios em vão entarão decifrar O eco de antigas palavras Fragmentos de cartas, poemas Mentiras, retratos Vestígios de estranha civilização Não se afobe, não, que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber Com o amor que eu um dia Deixei pra você Não se afobe, não, que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber Com o amor que eu um dia Deixei pra você" (Chico Buarque) Só mesmo aqui no Rio de Janeiro podemos ser nós mesmos. Esse teu doutorado em local tão distante da nossa terra natal veio bem a calhar. Não era para ser assim. Já estamos no terceiro milênio e nossos parentes e vizinhos a...
Ainda há Acordou cedo hoje. Antes do galo, ou talvez com ele. Mas o meu espanto não foi com esse despertar prematuro. Foi vê-la impostando sua voz retumbante após longos anos de cantares tímidos que mais se aproximavam do silêncio e do assobio. Vestia o seu xale vermelho, que eu achava que ela já não tinha, e cantava um fado triste e pungente como todos os outros que outrora compunham o seu cotidiano lisboeta. Se não soubesse que o juízo de minha mãe andava melhor que o meu, apesar de mais de oitenta, pensaria que se tratava do delírio senil de quem pensava ainda estar na mocidade. Disso não se tratava, todavia.   Tive mais certeza quando vi que meu pai a acompanhava no violão, como fazia nas casas de fado dos dias de antigamente. Talvez fosse saudade da terra natal, pois que já faziam dois anos que eles passaram a viver comigo no Brasil. Talvez tenha sido um sonho que cutucara suas memórias de vida noturna. Seja qual fosse o motivo do sara...
Em perfeições Por quanto tempo irá durar a minha beleza? Tu insistes em me perguntar. Como se o viço de tua pele desvanecesse qual a areia de uma ampulheta. Não é por excesso de vaidade, nem por mermo narcisismo, disso tenho certeza.  É fruto da insegurança que precede o momento em que nos tornamos par e que deriva da baixa auto-estima que – esta sim – eu não sei de onde vem. Dizer que, para mim, tu sempre serás linda é um clichê que, por mais honesto que seja – por vir de um homem apaixonado – não lhe é suficiente. Compreendo, até certo ponto, ante o contexto de amores líquidos e de vitrines virtuais que expõem falsa e superficialmente as relações em seus momentos e sentimentos, traduzindo o “mesmo” como “medíocre”. Por isso aproveito este enquanto do seu descanso, para mirar-lhe as curvas que já tão bem conheço, com as linhas e ondas que lhe marcam, e tentar descrevê-la, enquanto escrevo, como a micropaisagem que de fato é. Se não a chamo de perfeita, não é por excesso de defe...
Quando eu fui um José Era criança ainda. Uns oito anos talvez? Foi através da voz rasgada de Paulo Diniz que ouvi os versos desesperados de Drummond Através do toca fitas de uma parati, me vi, pela primeira vez, diante de uma tradução artística do que hoje reconheço como angústia Me identifiquei, a princípio, por ser o nome do personagem igual ao meu segundo E naquele momento primeiro achei foi engraçado as variadas desventuras do José Mas, na segunda ou terceira escuta, sabe-se lá, me pus em seu lugar Me vi nas noites do domingo em que, talvez precocemente, me preocupava com o futuro do mundo e com o crescimento e a prevalência da maldade E também nos choros e clamores que mantinha preso na garganta por não conseguir expeli-los e por não ter coragem (ou não enxergar a necessidade) de pedir ajuda Na solidão profunda que sentia em tantos momentos, com a ausência de afeto e carinho ou de palavras que me fizessem ver um sentido a canção me fazia pensar no mal-estar que...