Sinto só

 


Há um prazer agridoce em me vestir de tristeza durante alguns silêncios


Há beleza na varanda, do mar, do céu avermelhado pelo poente e nos telhados antigos que daqui eu vejo.


Ainda assim, prefiro me despir do sorriso performático que sustento se há companhia


E permitir que essa leve melancolia vespertina, tão comum às vidas imperfeitas, pouse sobre meus ombros enquanto espero o ronco da cafeteira italiana anunciado que o café está pronto. 


Abro mão de pôr para tocar alguma música elegante que pudesse trazer um quê de charme para o momento.


Por não ser tristeza aguda e exata, em vez de enxertar elementos dramáticos ou lúdicos que poderiam transmitir uma sensação de sentido ou beleza ao momento, prefiro permanecer quieto e passivo, atento apenas à velocidade das nuvens, à temperatura do vento e ao súbito advento da noite.


Sinto só. 


Não reflito, não penso e logo não resisto.


Repouso todos os papéis que ocupo simultaneamente quando há outros.


Permito que adormeçam enquanto estou sozinho 


Porque a qualquer momento a campainha vai tocar.


(Felipe José, 23 de junho de 2026)


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carta do mês de aniversário da melhor pessoa do mundo

Um menino

Maternura